Ano Bissexto #147 - O que faz um objeto ser uma obra de arte?

O que faz um objeto ser uma obra de arte?

Hoje eu vi uma notícia que eu não sei se é engraçada, se ela é curiosa, eu não sei bem como classificar. Mas é o seguinte: um adolescente de 17 anos, que estava em uma galeria de arte nos Estados Unidos, resolveu testar as pessoas que estavam ali e o próprio ambiente, a própria ideia do que é arte, talvez. Enfim, ele pegou uns óculos de grau, óculos normais e colocou no chão, diante de uma parede branca. Colocou esses óculos ali no chão e ficou de longe observando. E as pessoas começaram a tratar aquele objeto comum como um objeto artístico, dado o contexto – era uma galeria, era uma parede toda branca, o objeto estava ali sozinho… E as pessoas ficaram ali ao lado, olhando, observando, tirando foto. E ele depois postou isso, tirou fotos, e postou isso no Twitter, rindo de toda a situação.

De certa maneira isso mostra que a gente tem poucos parâmetros pra entender o que é arte hoje em dia. Desde o Duchamp com a questão do mictório (dentro de um contexto de obra de arte, de pegar um objeto pronto, levar ele para um contexto diferente, dar a ele um elemento conceitual e considerar aquilo uma obra de arte), desde esse momento a gente tem perdido um pouco a referência do que é arte, do que não é, do que pode ser, do que não pode ser obra de arte, do que precisa pra se fazer isso e se ter um pensamento artístico ou um trabalho artístico. E essa brincadeira do menino com os óculos na galeria de arte mostra um pouco isso.

Ao mesmo tempo, é interessante perceber que as pessoas podem ter uma experiência estética, minimamente que seja, de curiosidade, com qualquer objeto. Então, a brincadeira dele acaba sendo também uma confirmação da possibilidade da estética na nossa vida, já que a estética não é a gente se deslumbrar com uma grande obra de arte, de um grande gênio, mas é ter os sentidos atentos pra tudo que acontece com a gente ao nosso redor; e em qualquer objeto, em qualquer circunstância. Você pode estar na sua casa e ter os seus objetos, as suas coisas, ou andar na rua, observar o mundo e ter sensações estéticas com tudo isso. Com os óculos também não é diferente, eles podem emitir sensações estéticas. A questão grande da obra de arte na galeria é essa sensação de que a gente consegue parar pra sentir algo naquele momento. E no resto da vida, a gente vive meio no piloto automático; a gente vai seguindo e deixa de sentir as coisas. Então, essa brincadeira dele ao mesmo tempo que contesta o que é arte e o que não é arte, o que pode ser um trabalho artístico ou não, também confirma a ideia de que a experiência estética está em tudo. É um paradoxo curioso que foi estabelecido nessa brincadeira.

Na matéria que li, eles mencionam também outras pessoas que fizeram brincadeiras diferentes em contextos semelhantes. Vale dar uma olhada lá, eu vou deixar o link pra você acompanhar:

"A pair of glasses were left on the floor at a museum and everyone mistook it for art".