Viver de arte

Andy Warhol produzia imagens que remetiam ao mundo do consumo e ganhava dinheiro com essas obras. Pintava dinheiro em uma tela e depois trocava essas pinturas por dinheiro de verdade. E fazia ainda mais pinturas.

Tudo isso ainda pode soar estranho para quem pensa a arte como uma atividade que está fora do mundo real, sem ocupações básicas, ou desvinculada de um propósito maior. A expressão “arte pela arte” já não faz sentido em nosso mundo. Contudo, pra muita gente, a arte deve ser feita apenas por artistas diletantes que decidem abdicar de uma vida “normal” para emprestar à humanidade sua capacidade privilegiada de ver o mundo.

A obra de Warhol certamente não agrada a todos (e nem deveria, como tudo na vida), mas ele deixou para todos nós um legado importante no que se refere à percepção do artista: quem trabalha com arte também precisa viver e por isso é importante saber vender o seu trabalho. Muitos não fizeram isso e foram reconhecidos apenas postumamente - outros, nunca saberemos quem foram. Warhol queria ser, e foi, um artista de sua época, e colocou o consumo e o entretenimento em foco, ora exaltando o modo de vida das sociedades capitalistas, ora cutucando nossas mazelas. Um dos maiores artistas do século XX, um homem de negócios, um visionário? Escolha a versão que quiser. Warhol foi tudo isso.

O que depende só de mim

Quando penso no tempo que eu passo esperando que as coisas aconteçam, no tempo que uso para lamentar por não ter mais sorte ou oportunidades, eu entendo que, de certa maneira, não tem nenhum tempo que pode alcançar aquilo que eu quero.

E eu não quero muito - mas a gente sempre acha que nosso querer é pequeno, não é mesmo? -, e por isso não suporto o fato de ser contrariado por mim mesmo, me vendo incapaz de realizar coisas que dependem só de mim e criando ojeriza de tudo o que é parte do acaso e das circunstâncias que não controlo.

Ninguém escapa da tentação de acreditar no destino e esperar por uma reviravolta que resolva tudo o que a gente quer de forma mágica. Mas o destino não existe e a solução fantástica não vai acontecer. O jeito, então, é lutar contra o sonho para se acostumar a viver, só viver.

 Ilustração de  Yan

Ilustração de Yan

Contentamento

Quando nos colocamos diante de um desafio, seja ele qual for, do tamanho que vier, não podemos voltar atrás. Insistir ou aceitar a derrota, essas são as únicas opções.

Parece fácil (afinal, não temos mesmo escolha quando chegamos nesse ponto), mas muitas vezes o melhor era não ter dado o primeiro passo. Se tivéssemos a certeza da vitória seria diferente; se conseguíssemos aprender com as desilusões também.

Mas o que vai acontecer, quase sempre, é algo diverso: o sucesso trará confiança e vontade de arriscar mais, tentar mais. E a derrota, essa é um sofrimento constante, insistente. 

Os estóicos diziam que devemos nos contentar com o presente e não desejar nada além dele. Amando o presente estaremos sempre no lucro, encarando o momento atual como o mais importante; o único que existe, na verdade.  É uma sabedoria que é também um tipo de loucura. Afinal, contraria o que nós somos, o que não podemos deixar de ser. Mas a pergunta que fica é essa: existe outro jeito de vivermos em paz?

 Fotografia de  Achraf Baznani

Fotografia de Achraf Baznani

Recomeçar

Ter disposição para viver é também se colocar em situação de alerta. E não de vez quando, não quando há necessidade, mas sempre. Quem esquece disso, logo perde o encanto pelas coisas que fazem a diferença. E deixa de olhar errado para as coisas, deixa de pensar no agora.

Os pitagóricos diziam que se deve, todas as noites, antes de dormir, repassar os eventos do dia. Isso pode parecer uma precaução exagerada com o cotidiano. Mas não temos nada mais importante, evidente e potente do que nossas próprias vidas.

Não olhar para si mesmo, não dar atenção às suas disposições e equívocos, é desistir do presente que recebemos quando acordamos todos os dias: a habilidade de recomeçar.

 The Last Game, pintura de  Markus Boesch

The Last Game, pintura de Markus Boesch

O amante do coentro

Eu gosto de observar as pessoas. Aliás, acho que isso é uma coisa que quase todo mundo gosta. Alguns disfarçam mais, outros são inconvenientes. Eu tento ficar na minha, observando de longe, acompanhando gestos, trejeitos, pegando trechos de conversas. Curiosidade humana, só.

Mas hoje vi uma coisa estranha. Estava no supermercado e, na sessão das folhas, encontrei um cara obcecado por coentro. Não só por coentro, aparentemente, mas quando vi ele num primeiro momento ele estava escolhendo coentro - que era exatamente o que eu queria pegar - e eu tive dificuldade de escolher um pra levar porque esse cara, sério, esse cara analisou cada um dos coentros disponíveis. Tirou todos do lugar, foi cheirando um por um (e por isso, eu corri pra pegar logo um que parecia saudável antes dele encostar o nariz nas folhas)  e até provou umas folhinhas antes de decidir quais levar.

Quando ele escolheu - e foram só dois maços - eu já estava nas laranjas, mas sem conseguir tirar os olhos daquele espetáculo curioso e grotesco. Quando cheguei em casa comentei com a minha esposa dizendo que o cara devia ser chef de cozinha. Mas ela disse que se ele tivesse restaurante não compraria no supermercado e sim em alguma feira em que pudesse comprar maior quantidade por um preço menor. É verdade. Nossa conclusão: era só um hipster

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Amanhã começa o Hourly Comic Day

No ano passado eu descobri o Hourly Comic Day e escrevi sobre ele aqui. A ideia é simples: fazer um quadrinho durante cada hora em que você estiver acordado e publicar na internet (instagram, tumblr, twitter etc.) marcando o post com #hourlycomicday. Essa ideia surgiu em um fórum em 2006, inspirada na proposta do cartunista John Campbell.

Me interesso por tudo que tem relação com cotidiano, rotina e criatividade. Por isso, em Outubro do ano passado participei do Inktober e amanhã vou me aventurar no Hourly Comic Day também. Meu filho, Arthur, disse que vai participar comigo. Vou publicar tudo aqui e no twitter, caso você queira acompanhar.

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O tempo e os livros

Hoje, lendo um livro de Harold Bloom, me deparei com essa definição de importância da leitura:

[A leitura] me faz desejar ser eu mesmo; é justamente, por isso, conforme argumento ao longo deste livro, que devemos ler, e devemos ler somente o que há de melhor na literatura
Harold Bloom. Como e por que ler.

De acordo com Bloom, a leitura - por meio de uma intervenção de ordem estética, não moral - nos incita a fazer o bem. A arte em geral, e a leitura em particular, contribuem para a formação humana. Justamente por esse motivo, não faz sentido desperdiçar o nosso tempo lendo o que é ruim; ou, considerando que não sabemos o que é ruim antes de experimentarmos, não vale a pena arriscar o nosso tempo com o incerto.

É, por esse motivo, e não por elitismo puro e simples, que Bloom recomenda que se leia os clássicos, os livros que já passaram pelo crivo de muitos críticos e pela prova dos anos. É estranho pensar assim, apesar da obviedade do conselho. Afinal, se não podemos empregar o nosso tempo com tudo o que desejamos, devemos investi-lo naquilo que é mais certo. Mas se todos os leitores pensassem assim, novos autores ainda surgiriam? Se nenhum leitor se submetesse a ler o novo, o que levaria alguém a dedicar o seu próprio tempo e inteligência em uma obra fadada a ser um produto para o futuro?

Em um mundo ideal os leitores e escritores se dedicariam à literatura porque a literatura dá sentido à vida. É isso um sonho?

 Pintura de  Willem Weismann

Pintura de Willem Weismann