Recomeçar

Ter disposição para viver é também se colocar em situação de alerta. E não de vez quando, não quando há necessidade, mas sempre. Quem esquece disso, logo perde o encanto pelas coisas que fazem a diferença. E deixa de olhar errado para as coisas, deixa de pensar no agora.

Os pitagóricos diziam que se deve, todas as noites, antes de dormir, repassar os eventos do dia. Isso pode parecer uma precaução exagerada com o cotidiano. Mas não temos nada mais importante, evidente e potente do que nossas próprias vidas.

Não olhar para si mesmo, não dar atenção às suas disposições e equívocos, é desistir do presente que recebemos quando acordamos todos os dias: a habilidade de recomeçar.

 The Last Game, pintura de  Markus Boesch

The Last Game, pintura de Markus Boesch

O amante do coentro

Eu gosto de observar as pessoas. Aliás, acho que isso é uma coisa que quase todo mundo gosta. Alguns disfarçam mais, outros são inconvenientes. Eu tento ficar na minha, observando de longe, acompanhando gestos, trejeitos, pegando trechos de conversas. Curiosidade humana, só.

Mas hoje vi uma coisa estranha. Estava no supermercado e, na sessão das folhas, encontrei um cara obcecado por coentro. Não só por coentro, aparentemente, mas quando vi ele num primeiro momento ele estava escolhendo coentro - que era exatamente o que eu queria pegar - e eu tive dificuldade de escolher um pra levar porque esse cara, sério, esse cara analisou cada um dos coentros disponíveis. Tirou todos do lugar, foi cheirando um por um (e por isso, eu corri pra pegar logo um que parecia saudável antes dele encostar o nariz nas folhas)  e até provou umas folhinhas antes de decidir quais levar.

Quando ele escolheu - e foram só dois maços - eu já estava nas laranjas, mas sem conseguir tirar os olhos daquele espetáculo curioso e grotesco. Quando cheguei em casa comentei com a minha esposa dizendo que o cara devia ser chef de cozinha. Mas ela disse que se ele tivesse restaurante não compraria no supermercado e sim em alguma feira em que pudesse comprar maior quantidade por um preço menor. É verdade. Nossa conclusão: era só um hipster

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Amanhã começa o Hourly Comic Day

No ano passado eu descobri o Hourly Comic Day e escrevi sobre ele aqui. A ideia é simples: fazer um quadrinho durante cada hora em que você estiver acordado e publicar na internet (instagram, tumblr, twitter etc.) marcando o post com #hourlycomicday. Essa ideia surgiu em um fórum em 2006, inspirada na proposta do cartunista John Campbell.

Me interesso por tudo que tem relação com cotidiano, rotina e criatividade. Por isso, em Outubro do ano passado participei do Inktober e amanhã vou me aventurar no Hourly Comic Day também. Meu filho, Arthur, disse que vai participar comigo. Vou publicar tudo aqui e no twitter, caso você queira acompanhar.

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O tempo e os livros

Hoje, lendo um livro de Harold Bloom, me deparei com essa definição de importância da leitura:

[A leitura] me faz desejar ser eu mesmo; é justamente, por isso, conforme argumento ao longo deste livro, que devemos ler, e devemos ler somente o que há de melhor na literatura
Harold Bloom. Como e por que ler.

De acordo com Bloom, a leitura - por meio de uma intervenção de ordem estética, não moral - nos incita a fazer o bem. A arte em geral, e a leitura em particular, contribuem para a formação humana. Justamente por esse motivo, não faz sentido desperdiçar o nosso tempo lendo o que é ruim; ou, considerando que não sabemos o que é ruim antes de experimentarmos, não vale a pena arriscar o nosso tempo com o incerto.

É, por esse motivo, e não por elitismo puro e simples, que Bloom recomenda que se leia os clássicos, os livros que já passaram pelo crivo de muitos críticos e pela prova dos anos. É estranho pensar assim, apesar da obviedade do conselho. Afinal, se não podemos empregar o nosso tempo com tudo o que desejamos, devemos investi-lo naquilo que é mais certo. Mas se todos os leitores pensassem assim, novos autores ainda surgiriam? Se nenhum leitor se submetesse a ler o novo, o que levaria alguém a dedicar o seu próprio tempo e inteligência em uma obra fadada a ser um produto para o futuro?

Em um mundo ideal os leitores e escritores se dedicariam à literatura porque a literatura dá sentido à vida. É isso um sonho?

 Pintura de  Willem Weismann

Pintura de Willem Weismann

A experiência negativa

Encarar a complexidade da vida é também esquecer-se um pouco de tudo o que representamos diante do mundo. A experiência negativa da existência - seja pela ignorância ou pelo estado consciente da dúvida - sempre nos leva à angústia. Se essa angústia como elemento a ser combatido (já que ninguém quer, realmente, ficar angustiado) pode se configurar em uma experiência  transformadora, é o que define uma maior ou menor satisfação na vida.

De qualquer forma, não pode existir uma vida plena, pois isso contrariaria o sofrimento que acompanha todo e qualquer ser vivo durante toda a sua existência. O fato de não estarmos o tempo todo conscientes disso, e ainda nos surpreendermos com os males que nos afligem, é que é o maior mistério.

A única explicação que consigo imaginar para isso é uma esperteza da natureza, que nos empurra para a vida nos ensinando a esquecer dela.

 Ilustração de  JaeHoon Choi

Ilustração de JaeHoon Choi

Leo & Pipo

Hoje, bobeando pela internet, encontrei um projeto colaborativo chamado "Leo & Pipo". O projeto surgiu em 2008 como um experimento de street art e foi adaptado para outras plataformas. Aqui coloco algumas imagens de uma versão com colagens. Como descrito pelos autores do projeto, a regra é a apresentação de dois personagens a partir de fotografias antigas.

Esse projeto é o tipo de coisa que mostra que a internet é interessante não pela quantidade de informações a que podemos ter acesso, mas sim pela capacidade que conquistamos de mobilizar pessoas ao redor do mundo para as ações mais diversas possíveis. Aqui temos um exemplo na arte, mas o mesmo pode, e deve, ser feito na ciência, na educação etc.

Enfim, dê uma olhada lá no site deles. Afinal, o resultado é inusitado e estranho, como deveria ser sempre a própria vida.

Tudo no lugar certo

A realidade é imprevisível até certo ponto. Na maior parte do tempo, sabemos o que vai acontecer e até quando vai acontecer. Existe encanto e absurdo na vida, mas também existe previsibilidade; que, aliás, é o motivo principal para continuarmos seguindo um dia após o outro, montando as peças desse quebra-cabeça gigante no qual vivemos.

É justamente porque a vida é tão previsível nas coisas mais óbvias, que acabamos perdendo o jeito de olhar à nossa volta para ver o que é estranho e curioso. Manter-se curioso diante da vida é um desafio dos mais difíceis, mas sem isso somos apenas mais gente atarefada e emburrada com as contas, problemas e burocracias do cotidiano. Nem tudo tem que estar no lugar certo, e às vezes isso é difícil de entender.

 Desenho de  Oamul Lu

Desenho de Oamul Lu