Envelhecendo

É muito tentador considerar a vida um estado constante de exceção à regra. Eu deveria fazer isso, mas... Eu deveria agir daquele jeito, mas...

Apesar dessa vontade natural, incentivada pelo mundo complexo em que vivemos e pela realidade social que tende a ir para o avesso do que achamos que seria o caminho correto, acabamos percebendo, no processo de envelhecimento, que não existe vida possível sem um direcionamento.

Certo e errado podem ser relativos até determinado ponto, mas o tempo não nos dá espaço para fugir das escolhas. Decida quem você é e entenda as suas convicções o mais rápido que puder.  Não existe ação mais útil do que essa.

 Ilustração de  Marie Muravski

Ilustração de Marie Muravski

Apagar-se

Estar na internet é, de certa forma, se ver frente a frente com o espelho. Nem sempre nos sentimos bem com a própria imagem, mas nunca podemos dizer que não estamos realmente ali.

Nos últimos dias tenho trabalhado em um exercício que consiste em me apagar. Deletei minhas contas no Facebook, WhatsApp, Instagram, Twitter… Apaguei todos os meus textos do Medium e não senti nada. Um instante só e eles já não estavam lá. Por fim, diminuí meu tempo no smartphone e deixei de fazer várias coisas que eu gostava para tentar, pelo menos parcialmente, diminuir minha presença na internet.

Sei que no final isso é uma ilusão. Você pode sumir da vida das pessoas, mas não tem o direito de sair da web. Uma vez que você entrega os seus dados e informações, eles já não são seus, ainda que apontem para você o tempo todo. Lembro que, quando eu estava fazendo Doutorado, tinha um colega que pesquisava o que acontecia com os restos digitais das pessoas; principalmente depois que elas morrem, mas, às vezes, também por opção, quando elas ainda estão vivas, quando não querem mais ser notadas. Na época eu pensava: “quem iria querer sumir, não ser percebido? Ninguém realmente quer isso. As pessoas querem aparecer, se mostrar, não se apagar”. Era isso o que eu pensava. E aqui estou.

 Pintura de  Aldo Sergio

Pintura de Aldo Sergio

Viver de arte

Andy Warhol produzia imagens que remetiam ao mundo do consumo e ganhava dinheiro com essas obras. Pintava dinheiro em uma tela e depois trocava essas pinturas por dinheiro de verdade. E fazia ainda mais pinturas.

Tudo isso ainda pode soar estranho para quem pensa a arte como uma atividade que está fora do mundo real, sem ocupações básicas, ou desvinculada de um propósito maior. A expressão “arte pela arte” já não faz sentido em nosso mundo. Contudo, pra muita gente, a arte deve ser feita apenas por artistas diletantes que decidem abdicar de uma vida “normal” para emprestar à humanidade sua capacidade privilegiada de ver o mundo.

A obra de Warhol certamente não agrada a todos (e nem deveria, como tudo na vida), mas ele deixou para todos nós um legado importante no que se refere à percepção do artista: quem trabalha com arte também precisa viver e por isso é importante saber vender o seu trabalho. Muitos não fizeram isso e foram reconhecidos apenas postumamente - outros, nunca saberemos quem foram. Warhol queria ser, e foi, um artista de sua época, e colocou o consumo e o entretenimento em foco, ora exaltando o modo de vida das sociedades capitalistas, ora cutucando nossas mazelas. Um dos maiores artistas do século XX, um homem de negócios, um visionário? Escolha a versão que quiser. Warhol foi tudo isso.

O que depende só de mim

Quando penso no tempo que eu passo esperando que as coisas aconteçam, no tempo que uso para lamentar por não ter mais sorte ou oportunidades, eu entendo que, de certa maneira, não tem nenhum tempo que pode alcançar aquilo que eu quero.

E eu não quero muito - mas a gente sempre acha que nosso querer é pequeno, não é mesmo? -, e por isso não suporto o fato de ser contrariado por mim mesmo, me vendo incapaz de realizar coisas que dependem só de mim e criando ojeriza de tudo o que é parte do acaso e das circunstâncias que não controlo.

Ninguém escapa da tentação de acreditar no destino e esperar por uma reviravolta que resolva tudo o que a gente quer de forma mágica. Mas o destino não existe e a solução fantástica não vai acontecer. O jeito, então, é lutar contra o sonho para se acostumar a viver, só viver.

 Ilustração de  Yan

Ilustração de Yan

Contentamento

Quando nos colocamos diante de um desafio, seja ele qual for, do tamanho que vier, não podemos voltar atrás. Insistir ou aceitar a derrota, essas são as únicas opções.

Parece fácil (afinal, não temos mesmo escolha quando chegamos nesse ponto), mas muitas vezes o melhor era não ter dado o primeiro passo. Se tivéssemos a certeza da vitória seria diferente; se conseguíssemos aprender com as desilusões também.

Mas o que vai acontecer, quase sempre, é algo diverso: o sucesso trará confiança e vontade de arriscar mais, tentar mais. E a derrota, essa é um sofrimento constante, insistente. 

Os estóicos diziam que devemos nos contentar com o presente e não desejar nada além dele. Amando o presente estaremos sempre no lucro, encarando o momento atual como o mais importante; o único que existe, na verdade.  É uma sabedoria que é também um tipo de loucura. Afinal, contraria o que nós somos, o que não podemos deixar de ser. Mas a pergunta que fica é essa: existe outro jeito de vivermos em paz?

 Fotografia de  Achraf Baznani

Fotografia de Achraf Baznani

Recomeçar

Ter disposição para viver é também se colocar em situação de alerta. E não de vez quando, não quando há necessidade, mas sempre. Quem esquece disso, logo perde o encanto pelas coisas que fazem a diferença. E deixa de olhar errado para as coisas, deixa de pensar no agora.

Os pitagóricos diziam que se deve, todas as noites, antes de dormir, repassar os eventos do dia. Isso pode parecer uma precaução exagerada com o cotidiano. Mas não temos nada mais importante, evidente e potente do que nossas próprias vidas.

Não olhar para si mesmo, não dar atenção às suas disposições e equívocos, é desistir do presente que recebemos quando acordamos todos os dias: a habilidade de recomeçar.

 The Last Game, pintura de  Markus Boesch

The Last Game, pintura de Markus Boesch

O amante do coentro

Eu gosto de observar as pessoas. Aliás, acho que isso é uma coisa que quase todo mundo gosta. Alguns disfarçam mais, outros são inconvenientes. Eu tento ficar na minha, observando de longe, acompanhando gestos, trejeitos, pegando trechos de conversas. Curiosidade humana, só.

Mas hoje vi uma coisa estranha. Estava no supermercado e, na sessão das folhas, encontrei um cara obcecado por coentro. Não só por coentro, aparentemente, mas quando vi ele num primeiro momento ele estava escolhendo coentro - que era exatamente o que eu queria pegar - e eu tive dificuldade de escolher um pra levar porque esse cara, sério, esse cara analisou cada um dos coentros disponíveis. Tirou todos do lugar, foi cheirando um por um (e por isso, eu corri pra pegar logo um que parecia saudável antes dele encostar o nariz nas folhas)  e até provou umas folhinhas antes de decidir quais levar.

Quando ele escolheu - e foram só dois maços - eu já estava nas laranjas, mas sem conseguir tirar os olhos daquele espetáculo curioso e grotesco. Quando cheguei em casa comentei com a minha esposa dizendo que o cara devia ser chef de cozinha. Mas ela disse que se ele tivesse restaurante não compraria no supermercado e sim em alguma feira em que pudesse comprar maior quantidade por um preço menor. É verdade. Nossa conclusão: era só um hipster

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