Leo & Pipo

Hoje, bobeando pela internet, encontrei um projeto colaborativo chamado "Leo & Pipo". O projeto surgiu em 2008 como um experimento de street art e foi adaptado para outras plataformas. Aqui coloco algumas imagens de uma versão com colagens. Como descrito pelos autores do projeto, a regra é a apresentação de dois personagens a partir de fotografias antigas.

Esse projeto é o tipo de coisa que mostra que a internet é interessante não pela quantidade de informações a que podemos ter acesso, mas sim pela capacidade que conquistamos de mobilizar pessoas ao redor do mundo para as ações mais diversas possíveis. Aqui temos um exemplo na arte, mas o mesmo pode, e deve, ser feito na ciência, na educação etc.

Enfim, dê uma olhada lá no site deles. Afinal, o resultado é inusitado e estranho, como deveria ser sempre a própria vida.

Tudo no lugar certo

A realidade é imprevisível até certo ponto. Na maior parte do tempo, sabemos o que vai acontecer e até quando vai acontecer. Existe encanto e absurdo na vida, mas também existe previsibilidade; que, aliás, é o motivo principal para continuarmos seguindo um dia após o outro, montando as peças desse quebra-cabeça gigante no qual vivemos.

É justamente porque a vida é tão previsível nas coisas mais óbvias, que acabamos perdendo o jeito de olhar à nossa volta para ver o que é estranho e curioso. Manter-se curioso diante da vida é um desafio dos mais difíceis, mas sem isso somos apenas mais gente atarefada e emburrada com as contas, problemas e burocracias do cotidiano. Nem tudo tem que estar no lugar certo, e às vezes isso é difícil de entender.

Desenho de Oamul Lu

Desenho de Oamul Lu

Desistir

Estamos inseridos em uma cultura do sucesso, em que o sonho da vitória é vendido como se a realização fosse para todos, só basta querer. Todo mundo sabe que não é assim, que o sucesso é relativo e que a medida pra isso tem que ser estabelecida por cada um. O que é ter sucesso? Ser reconhecido, ter dinheiro, se sentir competente? Muitas possibilidades, muita chance da gente errar mão e acabar se sentindo em um vazio mesmo tendo alcançado os objetivos que tínhamos em mente.

Talvez tendo esse tipo de questão em mente, Cioran escreveu algo bonito sobre o sentido da existência espiritual:

(...) não é quando as coisas nos abandonam, mas quando nós as abandonamos que atingimos a nudez interior, esse extremo em que já não pertencemos mais nem ao mundo nem a nós mesmos, extremo no qual vitória significa demitir-se, renunciar com serenidade, sem remorsos e, sobretudo, sem melancolia
— CIORAN. História e Utopia, p.86

É quando desistimos que nos humanizamos, e perdemos a pretensão que às vezes temos de sermos mais do que podemos ser. Se perder, como possibilidade de aprimoramento pessoal, aqui está uma verdade indiscutível.

Animação de Yoon Miwon

Animação de Yoon Miwon

Goodreads (ou: me iludindo em relação aos meus hábitos de leitura)

Comecei a utilizar o Goodreads, um serviço que te permite gerenciar e compartilhar suas leituras com outras pessoas. Por que fazer isso é algo que não sei responder. Sendo bem sincero, ninguém deveria se importar com o que as outras pessoas estão lendo e com o quanto estão lendo. Mas, para além de simplesmente ter um controle das próprias leituras (algo que cada pessoa pode fazer em um caderno pessoal, na privacidade da sua casa), o que o Goodreads estimula é esse comportamento narcisista que nos define atualmente: queremos ser vistos pelos outros - e admirados, se possível.

No meu caso, a vontade de iniciar uma conta no Goodreads veio da constatação de que eu li muito pouco em 2017. Daí imaginei que se eu me colocar uma meta irreal para 2018 e deixar esse progresso público imaginando que alguém se importa com isso (mas claro que ninguém se importa), eu talvez leia um pouco mais do que ano anterior. Isso, olhando com calma, não vai ser muito difícil, é verdade. O problema é que eu tenho a mania de ler muitos livros simultaneamente. Atualmente, por exemplo, estou lendo 14 livros diferentes, alguns deles desde 2016 (acredite, desde 2016). E é aí que eu me perco. No final, talvez eu não leia pouco. Só não leio quase nada até a última página.

Como disse antes, nada disso importa muito. Por que alguém iria querer saber o que eu leio? E por que eu iria querer saber das leituras de outras pessoas? No final, tirando o caso de pessoas próximas que possam se influenciar e indicar livros umas às outras, penso que essas listas de leituras servem apenas para os próprios leitores sentirem que estão progredindo, que estão realizando algo, com uma meta. Pelo menos, é isso que espero com a minha própria lista.

O que realmente importa

Existe aquela história de que pensamento positivo é importante para realizar coisas na vida. Não acredito nisso. Mesmo assim, acho que é melhor ter atitude positiva diante da vida do que o contrário; e não porque "o mundo vai conspirar a seu favor", mas porque assim a vida pode ser mais leve, mais tranquila. O problema, contudo, é que quem não tem esse jeito de ver o mundo, não tem esse jeito de ver o mundo. Simples assim. Pensamento positivo não é algo que se aprende (mas claro que os coachs da vida devem dizer o contrário).

Por outro lado, há quem defenda seriamente que uma perspectiva otimista sobre si mesmo é fator decisivo na nossa capacidade de realização pessoal. E, sim, acho que isso faz muito sentido. Se trabalhamos com algo que detestamos, por exemplo, dificilmente seremos bons naquilo que fazemos. E o motivo para isso não é incapacidade técnica ou intelectual, mas emocional mesmo. Quem já saiu de casa todos os dias para um trabalho detestável sabe do que estou falando: o otimismo e a autoestima passam longe.

Mas se o pensamento positivo não se aprende e a possibilidade de viver daquilo que gostamos não é para todo mundo (e nunca vai ser), como viver? Um dia após o outro, entendendo quem se é, e buscando conectar os pontos que ficam pelo caminho. Um erro de quem procura conhecer o jeito como viviam as pessoas de sucesso, é acreditar que podemos emular a vida alheia. Não dá. Sua vida é única; seus problemas e alegrias também. "Aprenda com você mesmo", essa deveria ser a única sabedoria que deveríamos buscar, a única que realmente importa.

Ilustração de Hyuro

Ilustração de Hyuro

A ausência da memória

No episódio de hoje do meu podcast eu falei sobre memória, e algo que sempre relaciono com esse tema é a infância. Quando crianças temos uma vontade, que é quase universal entre os pequenos, de nos tornarmos adultos. É bem provável que a maioria das crianças pense sobre isso em algum momento: como seria bom ser adulto, e fazer o que eu quiser e me sentir livre etc. Depois crescemos e, você sabe, o processo se inverte. Nós, adultos, acabamos desejando a infância, época da real liberdade, das poucas preocupações, da felicidade verdadeira.

Contraditoriamente, acabo achando o sonho das crianças mais real e positivo. A infância é lembrada como uma época mágica só porque não recordamos como era realmente ser criança. O que lembramos, pense bem, é muito pouco, só o suficiente para acreditarmos na história da felicidade que nós mesmos inventamos. Não é fácil esquecer tanto, e se a natureza nos permitiu isso foi por algum motivo.

A infância possui inúmeros aspectos bons, mas a felicidade plena é o mais irreal e improvável de todos. Criança sofre, como todo mundo sofre, e pais e mães percebem isso mesmo que não queiram. No final, a capacidade de esquecer é uma proteção; não contra os outros, mas contra nós mesmos. É a ausência da memória que nos permite insistir em viver.

Colagem de Julia Gleiser

Colagem de Julia Gleiser

Sentir-se preso

Um jeito de encarar a rotina é aceitar o absurdo da realidade: hora certa para acordar, comer, trabalhar, se divertir... E um dia após o outro, sem nenhum motivo ou propósito aparentes. Outro jeito - mas para esse é preciso coragem - é duvidar de tudo. E assim viver em uma luta constante com os próprios desejos e vontades.

Como, em geral, somos acomodados e loucos por conveniência, acabamos escolhendo invariavelmente a primeira opção. O fato de mentirmos para nós mesmos alegando que esse é o único jeito de viver, é só mais uma prova da saudade que sentimos de uma época em que vivíamos isolados de outras realidades e caminhos.

Conhecer a liberdade parece uma vantagem, parece. Na verdade, essa é a maior das prisões.

Ilustração de Irene D'Antò

Ilustração de Irene D'Antò

Insistindo no mesmo

Hoje vi um tweet do Leon (do canal do Youtube Coisa de Nerd) falando sobre a utopia inicial da internet como um lugar de troca de conhecimentos e elucidação das pessoas:

No final na década de 1990, no desenvolvimento inicial da internet pública como a conhecemos hoje, alguns pesquisadores (Dominique Wolton, por exemplo, e depois, aqui no Brasil, Lúcia Santaella) insistiam na tese da internet como uma continuidade da indústria cultural, e não como reformulação completa da ideia de mídia. Os eufóricos não conseguiam ver assim, e insistiam no fato de que mais poder nas mãos das pessoas geraria, inevitavelmente, mais esclarecimento. Esse sonho kantiano do esclarecimento como uma consequência inevitável da liberdade e do acesso ao conhecimento já tinha falhado antes e vai falhar ainda muitas vezes, se continuarmos acreditando nisso.

Adorno, que desenvolveu a concepção da indústria cultural junto com Horkheimer, defendia que a cultura não precisa ser um espelho da realidade para mostrar seus problemas e entraves. Uma obra de arte que tenta expressar de forma direta determinado conteúdo social, acaba virando propaganda, e esse viés ideológico elimina quase que todo o conteúdo transformador do produto cultural. É por isso que Adorno via no dodecafonismo e no teatro de Beckett, possibilidades de compreensão da realidade muito mais potentes do que a cultura pop e massificada da mídia comercial.

A maior parte do que é produzido na internet é feito de maneira a ser palatável para o público. E se o que interessa é alcançar mais gente o mais rápido possível, não é a democratização do conhecimento que está em jogo, mas as mesmas estratégias ideológicas e comerciais da mídia de sempre. Isso não significa que tudo está errado. Só significa que estamos tão longe quanto sempre estivemos de um mundo em que o interesse geral será o esclarecimento e a ação em prol de uma sociedade melhor. É uma luta perdida que alguns decidem travar mesmo sabendo que é impossível vencer. E, quer saber, só esse tipo de luta vale a pena.

Foto de Dudi Ben Simon