Pouca importância

Em muitos momentos de nossas vidas acabamos duvidando de que as coisas se encaminham como deveriam (ou como poderiam) ser. Cada de um nós já sentiu, em algum momento, aquela estranha sensação de ter o mundo todo girando ao nosso redor. É como se fôssemos Truman descobrindo que está dentro de um programa de televisão. Tudo acontece por nossa causa, para nos ajudar ou prejudicar. Somos importantes; todo mundo nos nota, nos leva em conta em suas ações e palavras.

Mas, depois de alguma reflexão, acaba ficando mais fácil acreditar no que faz mais sentido: ninguém se importa com a gente tanto assim. As outras pessoas pensam em outras coisas, e se incomodam com outras questões. Não ocupamos (olha só que incrível!) a mente alheia durante as 24 horas do dia.  

Pode parecer desestimulante falar sobre a pouca importância de cada um de nós, mas eu penso o contrário. É libertador poder ser você mesmo, alguém que luta pelo que quer e acredita, sem uma legião de gente interessada em cada passo seu. Viver é mais simples do que parece.

Ilustração de  Cyril Rolando

Ilustração de Cyril Rolando

Frustração

É difícil lidar com a quebra de expectativas. Quando queremos muito uma coisa e não conseguimos o que esperávamos, ou quando não queremos nada em específico mas nos vemos contrariados por qualquer motivo, costumamos ficar em uma situação de agonia e insatisfação que demora pra passar.

Nesse contexto, vale dizer que tudo o que implica em sensibilidade é difícil de explicar. Primeiro, porque não se trata de um processo fisiológico puro e simples, algo que pode ser identificado e observado em todas as pessoas. E depois, porque nem todo mundo demonstra o que sente. A frustração talvez seja uma das coisas mais comuns entre nós. Mas cada pessoa reage de um jeito e externaliza de uma forma bem pessoal a sua própria privação. 

Pra mim, frustração é como se um buraco se abrisse na minha cabeça e começasse a expulsar de lá todos os pensamentos positivos que eu tenho. Só o que fica é a própria sensação de me ver insatisfeito por não ter aquilo que eu queria, que eu esperava. Não deixar que as coisas importantes não se percam no meio desse processo é o exercício que eu me imponho sempre que a frustração chega perto. Mas, olha, não é simples.

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Rita Lee (o livro)

A memória é uma coisa estranha. Quando tentamos lembrar de fatos recentes ou de coisas que deveríamos lembrar, ela nos prega uma peça e esquecemos de tudo. Por outro lado, várias coisas que lembramos são na verdade um conjunto de invenções, pequenas mentiras que contamos a nós mesmos, querendo nos convencer de que realmente foi assim.

Quando terminei de ler a autobiografia da Rita Lee fiquei com um sentimento misto de encanto e desconfiança. O encanto veio por causa da escrita leve e pelas histórias narradas como uma conversa boa (apesar de algumas repetições estilísticas chatíssimas, como quando ela desanda a escrever “fofo” quase depois de cada parágrafo). Já a desconfiança vem de passagens que parecem um floreio pra mostrar que tudo é mais incrível do que pode de fato ser. Um exemplo: não duvido da paixão que existia entre ela e Roberto de Carvalho, mas o jeito que Rita Lee tenta ilustrar isso é dizendo que transou no hospital, no dia do nascimento do filho, depois de uma cesariana! Não tenho como dizer que isso é totalmente impossível, mas não é provável, você concorda?

De qualquer forma, essas passagens — meio apagadas, meio inventadas — fazem também a beleza e o mistério do texto. Além disso, sobre a vida dos outros só podemos acreditar ou desacreditar, nada mais. Se é verdade ou mentira, às vezes interessa um pouco, às vezes não importa nada. É a história dela, do jeito que ela lembra e quer contar. E — nisso você pode acreditar — ela conta muita coisa bacana. A biografia de Rita Lee se mistura com o Brasil dos anos setenta, com uma ditadura que ela viveu e pouco se importou (apesar de ter sido presa), com os Mutantes que foram grandes mas passaram, com o pioneirismo que nem sempre foi reconhecido de uma mulher que fez rock em um meio dito de homens (e fazendo melhor do que muitos deles) e sem a qual o próprio rock brasileiro seria quase nada.

Rita Lee, o livro, vale muito a leitura. E Rita Lee, a artista, precisa ser ouvida e apreciada. Por algum tempo fui, como ela mesma diz no livro, um viúvo dos Mutantes, e só descobri a discografia dela recentemente. De certa forma, foi bom. Encontrei uma musicista e compositora com a qual não contava e esbarrei em uma contadora de histórias de primeira. Terminei o livro meio cético e ainda assim muito interessado em tudo que li. Qualquer autobiografia ruim pode estar cheia de verdades, mas o encanto e a curiosidade só aparecem nas boas. Essa, é assim.

Texto publicado originalmente em 21/02/2017

O tempo que temos

É fácil de perceber que nós não respeitamos nosso relógio biológico. Por relógio biológico se entende a capacidade que os organismos possuem de reagirem de forma ordenada nas horas apropriadas. É como se cada organismo tivesse uma capacidade própria de medir o tempo e, por isso, existem na natureza comportamentos baseados em horas, dias ou estações específicas.

Nós, no entanto, não respeitamos esse ritmo. Não dormimos e acordamos quando nosso corpo pede e nem sempre comemos quando temos fome. Criamos, isso sim, condições artificiais que determinam nosso tempo. Hora para isso, hora para aquilo. E assim o tempo do relógio se tornou mais importante que tudo. Na antiguidade, quando se pensava o tempo como algo cíclico e quando não existiam relógios precisos (até cerca de 300 anos atrás eles não possíveis), a própria atividade de medição do tempo era imprecisa e, por isso, pouco prática. Hoje convivemos com o conceito de homogeneidade do tempo, a ideia de que o tempo é medido do mesmo jeito em qualquer lugar, mas quando a escala utilizada para medir as horas não era uniforme isso simplesmente não podia ser feito. Um exemplo: os romanos antigos dividiam os dias em períodos de claro e escuro. E cada período desses era separado naquilo que eles denominavam de horas temporais. O número mais utilizado para essa divisão era 12. Portanto, 12 horas para o dia e 12 horas para a noite. Contudo, como em determinadas épocas do ano temos um período de luz maior ou menor (com exceção dos equinócios) o que acontecia na prática é que uma hora do dia não correspondia exatamente a uma hora da noite. É verdade que essa já é uma intervenção humana na medida do tempo, mas, ainda assim, se tratava de uma medição que respeitava o tempo da própria natureza, coisa que não fazemos mais.

Aqui em Brasília, enquanto escrevo esse texto, já são 18h10, mas olho pela janela e vejo um dia claro (fato reforçado pelo horário de verão). Em outras épocas do ano, nesse mesmo horário, eu já teria uma visão bem diferente. Como dizia no começo, estamos longe do tempo biológico. E esse afastamento começou com a primeira tentativa de criação de uma medida precisa do tempo (os relógios de sol da antiguidade não davam conta disso): um relógio d’água que aparece descrito em um texto chinês de 1092. Os relógios mecânicos, da forma como os conhecemos hoje, foram provavelmente inventados na Europa no final do século XIII e só então conseguimos calcular e dividir de maneira conjunta o dia e a noite. Se isso foi bom ou não, é difícil dizer. O que é certo é que não temos mais como voltar atrás. Esse é o tempo que temos.

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Perder a paciência

Essa é uma expressão encantadora: “perder a paciência”. Você estava com ela (ou ela com você, quem sabe) e aí, de repente, sem mais nem menos… puf. Você perde a paciência. Não encontra em lugar algum, luta, se esforça pra achá-la. Grita, talvez, se esgoela o quanto pode e nada, nada. Já era. Paciência perdida. E então você se vê junto com a irritação, com a agonia, com a falta dela… a paciência.

Muitas vezes durante a nossa vida vamos nos ver em situações assim, em que acreditamos que a paciência se perdeu pelo caminho quando estávamos com ela agorinha a pouco. No entanto, talvez esse seja só um jeito da gente justificar pra nós mesmos o fato de que: 1) nunca tivemos paciência e, por isso não poderíamos perdê-la; ou 2) a paciência não se perdeu de uma hora pra outra, mas foi morrendo, definhando, deixando de existir.

Quando se trata do primeiro caso, o que ocorre é que lutamos para não transparecer a ausência da paciência, fingimos o que não sentimos, nos esforçamos para sermos outros e, eventualmente, acabamos ficando bons nisso. É assim que a gente vive durante a maior parte do tempo, e isso não é ruim. É uma característica da civilização. Sabemos disfarçar nossos sentimentos e nossas vontades. Mas tem hora que não dá. E aí a gente “perde a paciência”. Agora, quando a questão é a paciência que realmente existia e se foi, o problema é maior, porque significa que estamos mudando nosso jeito de ver determinada situação, estamos menos tolerantes ou menos afeitos a determinadas soluções que antes eram aceitáveis. É um problema maior porque não conseguimos simplesmente voltar ao estado anterior (aquele, das máscaras que usamos para viver bem com os outros), mas nem por isso estamos em uma situação pior. Afinal, às vezes é preciso mudar, e é ótimo que isso ocorra, porque estamos vivos, porque queremos coisas diferentes, porque aceitamos entender a realidade de outros modos, porque entendemos que “perder a paciência” não é o fim do mundo.

Ilustração de  Saskia Keultjes

Ilustração de Saskia Keultjes

Escolha o tédio

Eu fui criança em uma época bem diferente desta em que agora sou pai. Quando eu era criança o meu número de opções em termos de diversão era sempre limitado. Não existiam programas infantis na tevê o tempo todo, não existiam tantos livros e filmes para crianças, não tinha internet e, portanto, nada de Youtube, redes sociais ou similares.

Antes de continuar, preciso dizer que esse não é um texto daqueles que propagam que “na minha época era melhor”. Não, na minha época não era melhor. Quase tudo hoje é muito melhor do que quando eu era criança, e eu me sinto muito feliz por poder estar vivo vendo todas as transformações tecnológicas que agora podemos aproveitar. Contudo, uma coisa é certa: nós, seres humanos, somos escravos do desejo de ter mais — e o mais aqui é qualquer coisa. E atualmente, você sabe, querer ter mais é uma constante. Queremos mais informação, mais interação e, principalmente, mais diversão. E, de todas as coisas fantásticas de nossa época, é justamente essa que acho a mais terrível. Diversão, diversão e diversão te chamando, te consumindo, te tornando obsessivo.

Se eu tiver que dar apenas uma dica para os futuros pais — e pros atuais também, oras — eu digo o seguinte: escolha sempre o tédio, pra você e para os seus filhos. Não dê diversão o tempo todo e nem busque isso para você como se não houvesse amanhã. Nós precisamos do tédio, da insatisfação e da dor para entender que a vida é mais do que anestesiar os sentidos. O entretenimento constante nos tornou dependentes demais de algo que está fora de nós, e assim não conseguimos aproveitar a vida quando mais precisamos, na solidão. Já pensou nisso? O entretenimento constante é uma ocupação contínua; você não se livra dessa ocupação e continua cansado apesar de acreditar estar se divertindo. A vida pode e deve ser mais do que isso. Mas só entende o que eu digo quem se dedica ao tédio, quem foge da diversão, ainda que por um tempinho.

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Texto publicado originalmente em 07/01/2017 no meu antigo blog, Arcano5.

Ser si mesmo

Quando eu estava no Mestrado (UFMA, Cultura e Sociedade, 2010/2011) eu fiz uma disciplina chamada “Corpo e Sociedade” e nela nós lemos dois textos do sociólogo francês David Le Breton: “Adeus ao corpo” e “Sociologia do corpo”. Neles Le Breton discute a condição moderna do corpo e como nos relacionamos com os outros e com nós mesmos, diante das exigências da atualidade, da tecnociência e dos meios de comunicação.

Em um livro mais recente, “Desaparecer de si: uma tentação contemporânea”, Le Breton fala, um pouco na contramão do que abordo aqui, de um momento em que perdemos vontade diante das coisas e dos outros. Apesar das condições de vida melhores em relação às gerações anteriores, acaba ocorrendo algo contraditório: em uma época com tanta formas de exposição e presença, passa a vigorar o desejo de sumir, de “desaparecer de si”. Parte disso já foi tratado por Freud em “O mal-estar na civilização”, que analisa o tédio da modernidade e as implicações de vivermos em uma época com tanta informação, tanta técnica, tanto de nós mesmos. Mas Le Breton avança na análise de nossa época, uma continuidade do século vivido por Freud, mas ainda assim diferente o suficiente para nos sentirmos perdidos, mesmo com a literatura disponível sobre a atualidade.

É um peso gigante viver tendo que ser alguém que precisa ser visto e não consegue se esconder. Como afirma Le Breton:

Em uma sociedade onde se impõem a flexibilidade, a urgência, a agilidade, a concorrência, a eficácia etc., ser si mesmo já não é algo evidente visto que a todo instante urge expor-se ao mundo, adaptar-se às circunstâncias, assumir sua autonomia, estar à altura dos acontecimentos. (David Le Breton, em “Desaparecer de si: uma tentação contemporânea”)

Em um mundo complexo como o nosso as identidades que assumimos (e desse jeito mesmo, no plural), nos pesam mais do que aliviam. Poder ser um, poder ser alguém vivendo apenas sua própria vida e a dos seus é um privilégio que hoje existe para poucos. E - mundo estranho, esse - não é isso algo que se conquiste, mas algo que se deixa de ter. O normal é ser muitos, e sofrer com todos que habitam sua vida. E, nesse contexto, ser esquecido e conseguir desaparecer de si é quase uma benção.

Ilustração de  Cinta Vidal

Ilustração de Cinta Vidal