Crônicas

Frustração

É difícil lidar com a quebra de expectativas. Quando queremos muito uma coisa e não conseguimos o que esperávamos, ou quando não queremos nada em específico mas nos vemos contrariados por qualquer motivo, costumamos ficar em uma situação de agonia e insatisfação que demora pra passar.

Nesse contexto, vale dizer que tudo o que implica em sensibilidade é difícil de explicar. Primeiro, porque não se trata de um processo fisiológico puro e simples, algo que pode ser identificado e observado em todas as pessoas. E depois, porque nem todo mundo demonstra o que sente. A frustração talvez seja uma das coisas mais comuns entre nós. Mas cada pessoa reage de um jeito e externaliza de uma forma bem pessoal a sua própria privação. 

Pra mim, frustração é como se um buraco se abrisse na minha cabeça e começasse a expulsar de lá todos os pensamentos positivos que eu tenho. Só o que fica é a própria sensação de me ver insatisfeito por não ter aquilo que eu queria, que eu esperava. Não deixar que as coisas importantes não se percam no meio desse processo é o exercício que eu me imponho sempre que a frustração chega perto. Mas, olha, não é simples.

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Perder a paciência

Essa é uma expressão encantadora: “perder a paciência”. Você estava com ela (ou ela com você, quem sabe) e aí, de repente, sem mais nem menos… puf. Você perde a paciência. Não encontra em lugar algum, luta, se esforça pra achá-la. Grita, talvez, se esgoela o quanto pode e nada, nada. Já era. Paciência perdida. E então você se vê junto com a irritação, com a agonia, com a falta dela… a paciência.

Muitas vezes durante a nossa vida vamos nos ver em situações assim, em que acreditamos que a paciência se perdeu pelo caminho quando estávamos com ela agorinha a pouco. No entanto, talvez esse seja só um jeito da gente justificar pra nós mesmos o fato de que: 1) nunca tivemos paciência e, por isso não poderíamos perdê-la; ou 2) a paciência não se perdeu de uma hora pra outra, mas foi morrendo, definhando, deixando de existir.

Quando se trata do primeiro caso, o que ocorre é que lutamos para não transparecer a ausência da paciência, fingimos o que não sentimos, nos esforçamos para sermos outros e, eventualmente, acabamos ficando bons nisso. É assim que a gente vive durante a maior parte do tempo, e isso não é ruim. É uma característica da civilização. Sabemos disfarçar nossos sentimentos e nossas vontades. Mas tem hora que não dá. E aí a gente “perde a paciência”. Agora, quando a questão é a paciência que realmente existia e se foi, o problema é maior, porque significa que estamos mudando nosso jeito de ver determinada situação, estamos menos tolerantes ou menos afeitos a determinadas soluções que antes eram aceitáveis. É um problema maior porque não conseguimos simplesmente voltar ao estado anterior (aquele, das máscaras que usamos para viver bem com os outros), mas nem por isso estamos em uma situação pior. Afinal, às vezes é preciso mudar, e é ótimo que isso ocorra, porque estamos vivos, porque queremos coisas diferentes, porque aceitamos entender a realidade de outros modos, porque entendemos que “perder a paciência” não é o fim do mundo.

Ilustração de  Saskia Keultjes

Ilustração de Saskia Keultjes

Escolha o tédio

Eu fui criança em uma época bem diferente desta em que agora sou pai. Quando eu era criança o meu número de opções em termos de diversão era sempre limitado. Não existiam programas infantis na tevê o tempo todo, não existiam tantos livros e filmes para crianças, não tinha internet e, portanto, nada de Youtube, redes sociais ou similares.

Antes de continuar, preciso dizer que esse não é um texto daqueles que propagam que “na minha época era melhor”. Não, na minha época não era melhor. Quase tudo hoje é muito melhor do que quando eu era criança, e eu me sinto muito feliz por poder estar vivo vendo todas as transformações tecnológicas que agora podemos aproveitar. Contudo, uma coisa é certa: nós, seres humanos, somos escravos do desejo de ter mais — e o mais aqui é qualquer coisa. E atualmente, você sabe, querer ter mais é uma constante. Queremos mais informação, mais interação e, principalmente, mais diversão. E, de todas as coisas fantásticas de nossa época, é justamente essa que acho a mais terrível. Diversão, diversão e diversão te chamando, te consumindo, te tornando obsessivo.

Se eu tiver que dar apenas uma dica para os futuros pais — e pros atuais também, oras — eu digo o seguinte: escolha sempre o tédio, pra você e para os seus filhos. Não dê diversão o tempo todo e nem busque isso para você como se não houvesse amanhã. Nós precisamos do tédio, da insatisfação e da dor para entender que a vida é mais do que anestesiar os sentidos. O entretenimento constante nos tornou dependentes demais de algo que está fora de nós, e assim não conseguimos aproveitar a vida quando mais precisamos, na solidão. Já pensou nisso? O entretenimento constante é uma ocupação contínua; você não se livra dessa ocupação e continua cansado apesar de acreditar estar se divertindo. A vida pode e deve ser mais do que isso. Mas só entende o que eu digo quem se dedica ao tédio, quem foge da diversão, ainda que por um tempinho.

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Texto publicado originalmente em 07/01/2017 no meu antigo blog, Arcano5.

Ser si mesmo

Quando eu estava no Mestrado (UFMA, Cultura e Sociedade, 2010/2011) eu fiz uma disciplina chamada “Corpo e Sociedade” e nela nós lemos dois textos do sociólogo francês David Le Breton: “Adeus ao corpo” e “Sociologia do corpo”. Neles Le Breton discute a condição moderna do corpo e como nos relacionamos com os outros e com nós mesmos, diante das exigências da atualidade, da tecnociência e dos meios de comunicação.

Em um livro mais recente, “Desaparecer de si: uma tentação contemporânea”, Le Breton fala, um pouco na contramão do que abordo aqui, de um momento em que perdemos vontade diante das coisas e dos outros. Apesar das condições de vida melhores em relação às gerações anteriores, acaba ocorrendo algo contraditório: em uma época com tanta formas de exposição e presença, passa a vigorar o desejo de sumir, de “desaparecer de si”. Parte disso já foi tratado por Freud em “O mal-estar na civilização”, que analisa o tédio da modernidade e as implicações de vivermos em uma época com tanta informação, tanta técnica, tanto de nós mesmos. Mas Le Breton avança na análise de nossa época, uma continuidade do século vivido por Freud, mas ainda assim diferente o suficiente para nos sentirmos perdidos, mesmo com a literatura disponível sobre a atualidade.

É um peso gigante viver tendo que ser alguém que precisa ser visto e não consegue se esconder. Como afirma Le Breton:

Em uma sociedade onde se impõem a flexibilidade, a urgência, a agilidade, a concorrência, a eficácia etc., ser si mesmo já não é algo evidente visto que a todo instante urge expor-se ao mundo, adaptar-se às circunstâncias, assumir sua autonomia, estar à altura dos acontecimentos. (David Le Breton, em “Desaparecer de si: uma tentação contemporânea”)

Em um mundo complexo como o nosso as identidades que assumimos (e desse jeito mesmo, no plural), nos pesam mais do que aliviam. Poder ser um, poder ser alguém vivendo apenas sua própria vida e a dos seus é um privilégio que hoje existe para poucos. E - mundo estranho, esse - não é isso algo que se conquiste, mas algo que se deixa de ter. O normal é ser muitos, e sofrer com todos que habitam sua vida. E, nesse contexto, ser esquecido e conseguir desaparecer de si é quase uma benção.

Ilustração de  Cinta Vidal

Ilustração de Cinta Vidal

Envelhecendo

É muito tentador considerar a vida um estado constante de exceção à regra. Eu deveria fazer isso, mas... Eu deveria agir daquele jeito, mas...

Apesar dessa vontade natural, incentivada pelo mundo complexo em que vivemos e pela realidade social que tende a ir para o avesso do que achamos que seria o caminho correto, acabamos percebendo, no processo de envelhecimento, que não existe vida possível sem um direcionamento.

Certo e errado podem ser relativos até determinado ponto, mas o tempo não nos dá espaço para fugir das escolhas. Decida quem você é e entenda as suas convicções o mais rápido que puder.  Não existe ação mais útil do que essa.

Ilustração de  Marie Muravski

Ilustração de Marie Muravski

Apagar-se

Estar na internet é, de certa forma, se ver frente a frente com o espelho. Nem sempre nos sentimos bem com a própria imagem, mas nunca podemos dizer que não estamos realmente ali.

Nos últimos dias tenho trabalhado em um exercício que consiste em me apagar. Deletei minhas contas no Facebook, WhatsApp, Instagram, Twitter… Apaguei todos os meus textos do Medium e não senti nada. Um instante só e eles já não estavam lá. Por fim, diminuí meu tempo no smartphone e deixei de fazer várias coisas que eu gostava para tentar, pelo menos parcialmente, diminuir minha presença na internet.

Sei que no final isso é uma ilusão. Você pode sumir da vida das pessoas, mas não tem o direito de sair da web. Uma vez que você entrega os seus dados e informações, eles já não são seus, ainda que apontem para você o tempo todo. Lembro que, quando eu estava fazendo Doutorado, tinha um colega que pesquisava o que acontecia com os restos digitais das pessoas; principalmente depois que elas morrem, mas, às vezes, também por opção, quando elas ainda estão vivas, quando não querem mais ser notadas. Na época eu pensava: “quem iria querer sumir, não ser percebido? Ninguém realmente quer isso. As pessoas querem aparecer, se mostrar, não se apagar”. Era isso o que eu pensava. E aqui estou.

Pintura de  Aldo Sergio

Pintura de Aldo Sergio

O que depende só de mim

Quando penso no tempo que eu passo esperando que as coisas aconteçam, no tempo que uso para lamentar por não ter mais sorte ou oportunidades, eu entendo que, de certa maneira, não tem nenhum tempo que pode alcançar aquilo que eu quero.

E eu não quero muito - mas a gente sempre acha que nosso querer é pequeno, não é mesmo? -, e por isso não suporto o fato de ser contrariado por mim mesmo, me vendo incapaz de realizar coisas que dependem só de mim e criando ojeriza de tudo o que é parte do acaso e das circunstâncias que não controlo.

Ninguém escapa da tentação de acreditar no destino e esperar por uma reviravolta que resolva tudo o que a gente quer de forma mágica. Mas o destino não existe e a solução fantástica não vai acontecer. O jeito, então, é lutar contra o sonho para se acostumar a viver, só viver.

Ilustração de  Yan

Ilustração de Yan