A (falta de) solidão contemporânea

Um dia, em um futuro próximo, é bem provável que as pessoas sintam solidão de notificações.

Deixa eu me explicar: quando eu era adolescente e ficava um final de semana inteiro em casa, eu costumava torcer pro telefone de casa tocar. Como eu estava sem poder interagir com ninguém - estou falando de uma época em que a internet ainda era muito cara e quase ninguém no Brasil acessava em casa - eu me sentia realmente só. E ouvir a voz de alguém (qualquer pessoa, mesmo que fosse engano) no telefone, era um respiro humano.

Mas hoje é diferente. Quem está sozinho está sendo notificado o tempo todo: email, timeline do Facebook e do Twitter, likes no Instagram, grupos do WhatsApp etc. É difícil alguém ter a sensação de que está realmente sozinho atualmente. Ou melhor, é difícil alguém sentir solidão humana.

Mas como tudo na vida é questão de adaptação, imagino que daqui a um tempo essas notificações não serão o suficiente para suprir a necessidade de atenção que temos e as pessoas sentirão solidão por falta de notificações.

Na época em que tudo é inteligente (tem smart de todo tipo por aí), parece que só as pessoas estão abandonando o discernimento e a coerência consigo mesmas.

Sou entusiasta de tecnologias de interação e é justamente por isso que me preocupo comigo mesmo: perder o sentimento de solidão que surge da ausência do outro e trocar isso por um sentimento de falta de informação (você já leu sobre FOMO?) não é só uma circunstância, mas uma mudança na própria importância que damos a nós mesmos como seres humanos.

Um investimento pro futuro: grupos de robôs que mandam mensagens e notificações para pessoas que não tem ninguém pra interagir. Isso ainda vai existir.