Cuidar do próprio destino

Montaigne (1533-1592) foi um filósofo francês considerado o inventor do estilo de escrita conhecido como “ensaio”, sendo este um tipo de texto que trata de um tema específico, mas de forma livre, sem analisar todos os aspectos do assunto.

Alguns fatos curiosos sobre Montaigne: apesar de nascer em uma família rica de Bordeaux, conta-se que ele foi obrigado a viver com camponeses até os três anos de idade, para se familiarizar com uma vida simples. Além disso, durante boa parte da infância ele foi educado quase que exclusivamente em latim, o que lhe permitiu o acesso ao conhecimento letrado de sua época e também ao conhecimento preservado da antiguidade. Essa educação rígida e não tão convencional, talvez tenha moldado o espírito de Montaigne para o ceticismo, uma postura filosófica que remonta ao período clássico da Grécia antiga. Apesar de Platão, por exemplo, não ser um cético, a Academia (escola fundada por ele) acabou se tornando, após a morte do mestre, um ambiente em que se praticava um ceticismo moderado. Por esse motivo, durante muito tempo, o termo “acadêmico” era utilizado como sinônimo de “cético”; algo curioso, se considerarmos que a postura investigativa própria à busca pelo conhecimento envolve, de maneira necessária, uma boa dose de ceticismo.

Os ensaios de Montaigne tratam dos mais diversos temas, mas uma coisa comum a todos eles é justamente esse viés cético. Em relação às discussões sobre a religião, por exemplo, Montaigne não se posicionava a favor dos católicos e nem dos protestantes (importante lembrar que ele viveu o ambiente conturbado da Reforma Protestante). Para ele, não temos argumentos racionais para defender a religião, porque todas as ditas “verdades” são passíveis de dúvida (ou, pelo menos, é assim que pensa um cético). Dado que não existe nenhuma proposição metafísica que possa ser utilizada como um argumento contrário a uma outra, o único caminho possível, no que se refere às religiões, é considerar a fé como o elemento maior; e não a institucionalização de uma crença, seja ela qual for. Assim, o ceticismo de Montaigne propõe que cada ser humano deva adotar uma postura de cautela, valorizando sua própria experiência - experiência essa que não pode ser considerada maior ou mais importante do que a de nenhum outro ser humano. Em resumo, toda e qualquer fé deve ser respeitada.

O que temos aqui, portanto, é uma forma de individualismo, característica essencial para o humanismo que se desenvolveu do Renascimento ao Iluminismo, e que hoje se mistura às muitas perspectivas diferentes que temos para pensarmos sobre nós mesmos, sobre o que somos e sobre como devemos agir.

Um problema da contemporaneidade: talvez não sejamos céticos o suficiente e, por isso, nos deixamos levar pelas ideias dos outros sem refletir o mínimo possível. E como resolver isso? Um bom caminho seria nos dedicarmos, como fez Montaigne em seus ensaios, a pensar a nossa vida, cuidando assim cada um do próprio destino.