Insistindo no mesmo

Hoje vi um tweet do Leon (do canal do Youtube Coisa de Nerd) falando sobre a utopia inicial da internet como um lugar de troca de conhecimentos e elucidação das pessoas:

No final na década de 1990, no desenvolvimento inicial da internet pública como a conhecemos hoje, alguns pesquisadores (Dominique Wolton, por exemplo, e depois, aqui no Brasil, Lúcia Santaella) insistiam na tese da internet como uma continuidade da indústria cultural, e não como reformulação completa da ideia de mídia. Os eufóricos não conseguiam ver assim, e insistiam no fato de que mais poder nas mãos das pessoas geraria, inevitavelmente, mais esclarecimento. Esse sonho kantiano do esclarecimento como uma consequência inevitável da liberdade e do acesso ao conhecimento já tinha falhado antes e vai falhar ainda muitas vezes, se continuarmos acreditando nisso.

Adorno, que desenvolveu a concepção da indústria cultural junto com Horkheimer, defendia que a cultura não precisa ser um espelho da realidade para mostrar seus problemas e entraves. Uma obra de arte que tenta expressar de forma direta determinado conteúdo social, acaba virando propaganda, e esse viés ideológico elimina quase que todo o conteúdo transformador do produto cultural. É por isso que Adorno via no dodecafonismo e no teatro de Beckett, possibilidades de compreensão da realidade muito mais potentes do que a cultura pop e massificada da mídia comercial.

A maior parte do que é produzido na internet é feito de maneira a ser palatável para o público. E se o que interessa é alcançar mais gente o mais rápido possível, não é a democratização do conhecimento que está em jogo, mas as mesmas estratégias ideológicas e comerciais da mídia de sempre. Isso não significa que tudo está errado. Só significa que estamos tão longe quanto sempre estivemos de um mundo em que o interesse geral será o esclarecimento e a ação em prol de uma sociedade melhor. É uma luta perdida que alguns decidem travar mesmo sabendo que é impossível vencer. E, quer saber, só esse tipo de luta vale a pena.

 Foto de  Dudi Ben Simon