O nosso rosto no espelho

Já faz tempo que não temos um consenso em torno do que significa ser culto. Talvez alguém diga que nunca existiu esse consenso, mas todos nós vamos admitir que em alguma outra época era mais fácil de se identificar essas conexões, talvez por conta do número bem limitado de pessoas que possuíam acesso à escolarização.

Claro que a ideia de cultura não se resume à cultura acadêmica. Mas o fato de existir uma cultura acadêmica acessível apenas a um pequeno grupo foi o que nos fez aceitar, por muito tempo, a dicotomia entre cultura erudita e cultura popular. Só que hoje não é mais assim.

Pintura de Deenesh Ghyczy.

Pintura de Deenesh Ghyczy.

O que significa exatamente ser culto nos dias de hoje? Um especialista em literatura fantástica latino-americana é culto? Sim. E uma pessoa que está inserida desde a infância em uma comunidade ribeirinha e que conhece os valores e tradições de seu povo, é culta? Sim. E o nerd que sabe todos os detalhes da série Game of Thrones, dá pra dizer que essa pessoa é culta? Claro. E o programador que trabalha como front-end developer? Sim, óbvio. E o comerciante que trabalha com público e que compreende as necessidades da lábia para o seu ofício? Também. Acho que não preciso continuar com essa lista - certamente interminável - porque você já entendeu onde quero chegar: a nossa ideia de cultura é tão ampla que quase não serve mais pra nada.

Aparentemente isso pode não parecer um problema. Hoje vivemos no constante argumento de que mais é melhor. Logo, mais diversidade sempre é bom e não dá pra ver nada de negativo nisso. Mas eu penso diferente. Apesar de discordar do fato de que as pessoas sejam discriminadas por não serem consideradas cultas (independentemente da ideia de cultura que se queira defender), entendo que uma definição de cultura mais específica nos ajuda a entender o que é e não é interessante em cada coisa que fazemos; principalmente em relação às suas especificidades.

Um exemplo: quando tudo é cultura e todo mundo é culto, Arthur Conan Doyle - o incrível autor das histórias de Sherlock Holmes - e eu estamos no mesmo nível. Ambos escrevem textos. E só.

Mas você sabe que não é bem assim. Existem escritores e ESCRITORES, músicos e MÚSICOS, cientistas e CIENTISTAS e assim por diante. Nivelar todo mundo a partir de um parâmetro de igualdade absoluta não ajuda a cultura a se desenvolver, pelo contrário.

A Wikipédia, por exemplo, é uma excelente enciclopédia para assuntos de cultura pop (pesquise pelo verbete Seinfeld e você vai ver como ele é completo), mas para outras coisas ela não é tão bom assim (pesquise sobre o conceito de sublime no campo da estética, por exemplo). Isso prova que a Wikipédia não é uma fonte de pesquisa para assuntos acadêmicos? Não, isso mostra que a Wikipédia é ótima para cultura pop e boa para iniciar pesquisas acadêmicas. Mas veja as acusações que muitos acadêmicos fazem à Wikipédia: "não é precisa!", "são fontes discutíveis!", "não é acadêmico o suficiente!". Mas quem disse que devemos levar a Wikipédia tão a sério assim? Fácil: nossa concepção de cultura, que nos faz considerar toda produção humana como cultura equivalente.

Mas pense bem: nem todo conhecimento é de interesse de todo mundo e nem deve estar disponível em todo lugar. E isso não ruim ou retrógrado, mas uma condição da vida humana. No entanto, nosso espírito politicamente correto nos leva à crença de que uma música comercial com quase nenhum apelo estético deve considerada tão relevante quanto a obra de Bob Dylan, por exemplo. Mas não é. Você pode detestar Bob Dylan e amar sertanejo universitário e não tem nada de errado nisso. Nada mesmo. Mas você precisa conseguir entender que essas músicas não são culturalmente equivalentes. Um texto de Clarice Lispector vale mais do que muitos best-sellers que estão sendo consumidos atualmente. E o fato de você gostar do que é obviamente pior, não faz de você uma pessoa pior. Faz de você uma pessoa que aprecia coisas diferentes daquilo que existe de melhor (eu estou redundante demais aqui, mas é que não consigo me expressar de outro jeito). Eu gosto de filmes B (trashs mesmo) não porque eu acredite que eles são bons, mas justamente porque eu sei que eles são ruins. É isso que torna eles interessantes pra mim, mais do que outros filmes bons e culturalmente mais relevantes que não vão ganhar a minha atenção.

Se cada um tomar para si o modelo de cultura que lhe convier, o único parâmetro que nos garantirá a percepção do sujeito culto é o nosso olhar sobre nós mesmos. No entanto, a massificação da educação e da informação gerou o estranho efeito de nos tornar mas aptos ao esvaziamento de ideias e à assimilação de dados coletados de fontes diversas. Assim, a cultura deixa de estar em nós mesmos e em um reconhecimento de nossas capacidades e limitações e passa a se encontrar em determinados status e convenções que nada ou quase nada tem a ver com uma real compreensão de problemas e situações reais.

Essa mudança, acredito, é um claro exemplo de como o ideário do pensamento coletivo pode trazer menos benefícios do que a aceitação da condição egoísta da humanidade - egoísta no sentido de cuidar dos próprios interesses e buscar atingir suas finalidades. Em nossa cultura massificada, ultra-especializada e globalizada, ser culto se tornou, paradoxalmente, tudo e nada. De um lado ficam os acadêmicos, defendendo um ideário de status acessível a um número muito pequeno de pessoas que suportam a guerra do empoderamento universitário. E do outro fica todo o resto das pessoas que buscam a cultura contemplando o próprio rosto no espelho - por meio dos produtos da mídia e daquilo que sentem mais afinidade. Quem está certo? Ninguém. E assim todos saem perdendo.