O tempo que temos

É fácil de perceber que nós não respeitamos nosso relógio biológico. Por relógio biológico se entende a capacidade que os organismos possuem de reagirem de forma ordenada nas horas apropriadas. É como se cada organismo tivesse uma capacidade própria de medir o tempo e, por isso, existem na natureza comportamentos baseados em horas, dias ou estações específicas.

Nós, no entanto, não respeitamos esse ritmo. Não dormimos e acordamos quando nosso corpo pede e nem sempre comemos quando temos fome. Criamos, isso sim, condições artificiais que determinam nosso tempo. Hora para isso, hora para aquilo. E assim o tempo do relógio se tornou mais importante que tudo. Na antiguidade, quando se pensava o tempo como algo cíclico e quando não existiam relógios precisos (até cerca de 300 anos atrás eles não possíveis), a própria atividade de medição do tempo era imprecisa e, por isso, pouco prática. Hoje convivemos com o conceito de homogeneidade do tempo, a ideia de que o tempo é medido do mesmo jeito em qualquer lugar, mas quando a escala utilizada para medir as horas não era uniforme isso simplesmente não podia ser feito. Um exemplo: os romanos antigos dividiam os dias em períodos de claro e escuro. E cada período desses era separado naquilo que eles denominavam de horas temporais. O número mais utilizado para essa divisão era 12. Portanto, 12 horas para o dia e 12 horas para a noite. Contudo, como em determinadas épocas do ano temos um período de luz maior ou menor (com exceção dos equinócios) o que acontecia na prática é que uma hora do dia não correspondia exatamente a uma hora da noite. É verdade que essa já é uma intervenção humana na medida do tempo, mas, ainda assim, se tratava de uma medição que respeitava o tempo da própria natureza, coisa que não fazemos mais.

Aqui em Brasília, enquanto escrevo esse texto, já são 18h10, mas olho pela janela e vejo um dia claro (fato reforçado pelo horário de verão). Em outras épocas do ano, nesse mesmo horário, eu já teria uma visão bem diferente. Como dizia no começo, estamos longe do tempo biológico. E esse afastamento começou com a primeira tentativa de criação de uma medida precisa do tempo (os relógios de sol da antiguidade não davam conta disso): um relógio d’água que aparece descrito em um texto chinês de 1092. Os relógios mecânicos, da forma como os conhecemos hoje, foram provavelmente inventados na Europa no final do século XIII e só então conseguimos calcular e dividir de maneira conjunta o dia e a noite. Se isso foi bom ou não, é difícil dizer. O que é certo é que não temos mais como voltar atrás. Esse é o tempo que temos.

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