Perder a paciência

Essa é uma expressão encantadora: “perder a paciência”. Você estava com ela (ou ela com você, quem sabe) e aí, de repente, sem mais nem menos… puf. Você perde a paciência. Não encontra em lugar algum, luta, se esforça pra achá-la. Grita, talvez, se esgoela o quanto pode e nada, nada. Já era. Paciência perdida. E então você se vê junto com a irritação, com a agonia, com a falta dela… a paciência.

Muitas vezes durante a nossa vida vamos nos ver em situações assim, em que acreditamos que a paciência se perdeu pelo caminho quando estávamos com ela agorinha a pouco. No entanto, talvez esse seja só um jeito da gente justificar pra nós mesmos o fato de que: 1) nunca tivemos paciência e, por isso não poderíamos perdê-la; ou 2) a paciência não se perdeu de uma hora pra outra, mas foi morrendo, definhando, deixando de existir.

Quando se trata do primeiro caso, o que ocorre é que lutamos para não transparecer a ausência da paciência, fingimos o que não sentimos, nos esforçamos para sermos outros e, eventualmente, acabamos ficando bons nisso. É assim que a gente vive durante a maior parte do tempo, e isso não é ruim. É uma característica da civilização. Sabemos disfarçar nossos sentimentos e nossas vontades. Mas tem hora que não dá. E aí a gente “perde a paciência”. Agora, quando a questão é a paciência que realmente existia e se foi, o problema é maior, porque significa que estamos mudando nosso jeito de ver determinada situação, estamos menos tolerantes ou menos afeitos a determinadas soluções que antes eram aceitáveis. É um problema maior porque não conseguimos simplesmente voltar ao estado anterior (aquele, das máscaras que usamos para viver bem com os outros), mas nem por isso estamos em uma situação pior. Afinal, às vezes é preciso mudar, e é ótimo que isso ocorra, porque estamos vivos, porque queremos coisas diferentes, porque aceitamos entender a realidade de outros modos, porque entendemos que “perder a paciência” não é o fim do mundo.

Ilustração de  Saskia Keultjes

Ilustração de Saskia Keultjes