Olhar a natureza

Os primeiros filósofos gregos buscavam compreender a origem das coisas. No entanto, essa busca está presente também em outras culturas e é operada de diferentes maneiras através de formas distintas de conhecimento. Nesse sentido, o que difere a ação dos primeiros filósofos de outras tentativas de compreender a origem de todas as coisas?

Foto de  Joy St. Claire

A forma de inquirição proposta pelos pré-socráticos possui pelo menos duas características inovadoras. A primeira delas é a pergunta "o que é?" estruturada de forma a considerar uma relação de causalidade. Assim, a pergunta pela origem das coisas é também uma pergunta sobre a possibilidade de podermos conhecer a realidade, no sentido da viabilidade de se apontar uma causa primeira para todas as coisas.

Esse tipo de raciocínio, aparentemente óbvio, exige a necessidade de pensarmos se não vamos cair em um argumento que se estende ao infinito. Por exemplo: se considerarmos que cada coisa tem uma causa, talvez cheguemos à conclusão de que toda causa precisa de algo anterior à ela para existir. Assim podemos acabar dentro de um paradoxo (lembra daquela história de quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?). 

Por isso, é interessante perceber que no lugar de se acomodarem com uma resposta mais fácil e impositiva ("a origem de tudo é isso, porque é assim e pronto"), os primeiros filósofos procuraram uma origem para todas as coisas na natureza, considerando motivos ou razões mais ou menos lógicas para interpretá-la assim. Se estas respostas nos soam hoje como ingênuas, é preciso lembrar a época em que foram construídos estes raciocínios, os materiais e conhecimentos que estavam disponíveis para esses pensadores e, principalmente, a forma avançada de se portar diante da questão do conhecimento. Afinal, apesar de cada filósofo defender uma tese que acreditava fazer sentido, até onde sabemos nenhum deles buscava eliminar a possibilidade de que outros pudessem pensar por conta própria alcançando assim respostas mais completas e viáveis para as mesmas questões.

A segunda característica que considero relevante apontar é algo que mencionei rapidamente explicando a anterior: a busca pela resposta no mundo natural e não no sobrenatural. Dado que a busca pela origem de todas as coisas nos leva para uma dimensão de conhecimento que está muito além do que conseguimos alcançar, uma tendência natural é tentarmos encontrar uma resposta para essa questão fora do mundo físico, no sobrenatural. O fato destes filósofos se esforçarem por encontrar uma resposta razoável dentro do plano da natureza já representa também um avanço enorme do ponto de vista do desenvolvimento técnico e científico da humanidade. Se as consequências deste desenvolvimento foram mais positivas do que negativas, é uma outra coisa que ainda iremos discutir, pois em nossa análise do surgimento da filosofia nos cabe também tentar entender seus deslizes e entraves no processo de constituição da cultura ocidental.

A Origem da Filosofia

O surgimento do pensamento filosófico ocorreu na Grécia, entre os séculos VII e VI a.C., e o primeiro filósofo se chamava Tales de Mileto. 

Essas afirmações, tão absolutas e contundentes, podem causar um certo estranhamento. Afinal, será que ninguém pensava e refletia criticamente antes desse período histórico e em outros lugares? Será que podemos realmente afirmar com tanta convicção que a Filosofia surgiu naquele espaço geográfico, naquele momento e tendo uma pessoa específica indicada como a primeira a filosofar?

Em parte isso está certo, principalmente se considerarmos que a Filosofia a que estamos nos referindo se trata de um tipo de reflexão, bem peculiar e pontual, que surgiu por conta de circunstâncias sociais, políticas e econômicas que, por volta do século VI a.C., existiam na cultura grega de forma mais evidente do que em outras culturas.

Partenon , um símbolo da democracia grega

Partenon, um símbolo da democracia grega

A primeira coisa que precisamos compreender - para não cairmos na armadilha do preconceito e do etnocentrismo - é que a Filosofia é uma forma de saber, mas não necessariamente a melhor forma de saber. Por isso, quando afirmamos que a Filosofia surgiu na Grécia não podemos com isso concluir que aquele era o povo mais inteligente da antiguidade ou o que ofereceu mais contribuições para as sociedades humanas. Outras civilizações desenvolveram muitos conhecimentos e certamente em muitos aspectos esses saberes eram até mesmo bem mais avançados do que aqueles que estavam sendo produzidos na Grécia no período em que surgiu a Filosofia.

O fato de não chamarmos de Filosofia o conhecimento produzido pelos orientais, egípcios ou pelos maias não significa que estes povos não eram dotados de técnicas e culturas avançadas. Além disso, outra característica do surgimento da Filosofia que veremos nas próximas aulas é a constatação de que uma das condições essenciais para o surgimento da Filosofia na Grécia foi o fato de que os gregos estavam em contato com uma grande diversidade de culturas - fosse por motivos econômicos, políticos ou mesmo por interesse nos saberes produzidos por outros povos - o que permitiu ao povo grego a possibilidade de compreender a realidade em contexto, abrindo assim caminho para o que entendemos como a percepção filosófica da realidade.

Outro aspecto importante é a relação entre Mito e Filosofia. Por vezes temos a percepção de que Mito e Filosofia se opõem completamente, um representando o pensamento irracional e o outro dando conta de reflexões mais atentas sobre a realidade. No entanto, como veremos, nem o Mito é ausência de razão - pois, mesmo não fazendo uso do rigor científico ou da argumentação filosófica, é inegável que os mitos são tentativas de compreensão da realidade - e nem a Filosofia é a razão acima de todas as coisas, já que o aspecto simbólico do Mito é algo recorrente em toda a Filosofia (assim como no pensamento social em geral) desde a antiguidade até os dias atuais.

Em outro texto vou destacar o valor do mito e sua importância em culturas distintas. A ideia é percebermos os pontos de diálogo e conflito entre Mito e Filosofia, para assim conseguirmos entender melhor o que a Filosofia é.

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Mito e Filosofia

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