Mito e Filosofia - Aula 2 / 1º Ano

Os mitos são uma tentativa de compreensão da realidade e como toda forma se apropriar da realidade, os mitos possuem um processo de construção, maturação e, por vezes, de transformação ou até mesmo superação.

Hefesto acorrentando Prometeu, por Dirck van Baburen (1623).

Hefesto acorrentando Prometeu, por Dirck van Baburen (1623).

A palavra "mito" é, às vezes, associada com a palavra "mentira", justamente por pensarmos que os mitos são expressões menores ou primitivas das sociedades humanas. No entanto, cabe lembrar que toda forma de conhecimento possui circunstâncias e possibilidades específicas. Assim, da mesma forma que não era possível desenvolver tecnologia computacional no final do século XVIII, também não era possível que se produzissem respostas científicas no momento em que os mitos foram criados, não exatamente por incapacidade humana, mas sim pelo fato de que o conhecimento - assim como toda a cultura - é cumulativo e se desenvolve por meio de um processo longo e difícil de embates e conflitos.

É comum vermos a seguinte simbolização que busca dar conta do surgimento da filosofia: "mito x razão". Mas será que é mesmo isso, o mito é o oposto ou a ausência de razão?

Na minha opinião essa forma de ver o mito está completamente errada. Em primeiro lugar, é importante entendermos que o mito é uma produção humana - produção poética, aliás, portanto extremamente sutil e elaborada - que busca compreender a natureza e seus desdobramentos. Nós, que nascemos nos séculos XX e XXI, nos acostumamos com a ideia de que já existe uma resposta para grande parte dos grandes mistérios da natureza. Se são boas respostas ou se poderiam ser consideradas respostas definitivas é uma outra coisa, mas o fato é que as respostas existem. Assim, ainda que não saibamos explicar exatamente como mudam as estações, como conseguimos criar instrumentos para modificar o meio ambiente ou como nossa estrutura biológica nos permite o desenvolvimento da linguagem, nós nos contentamos com o fato de que alguém deve ter resposta para tudo isso.

No momento histórico em que os mitos foram criados, contudo, não era bem assim. Imagine como devia ser angustiante não entender por que o céu era azul, por que existiam trovões, como reproduzir o fogo e como chamar cada coisa que existia (a noite, o sol, a terra etc.). Os mitos são uma primeira tentativa de compreender essa natureza misteriosa. A resposta mítica oferecia às pessoas um sentimento de unidade social (isso acontece nos mitos que nos dizem de onde viemos), um conforto espiritual (tentando explicar o que acontece após a morte) e uma compreensão para o processo de transformação da natureza operada pelo ser humano (os mitos que narram o domínio do fogo ou a construção de instrumentos e técnicas se referem exatamente à isso).

Um segundo motivo para não descartarmos o mito como parte do pensamento racional está no fato de os mitos são tão importantes para as sociedades pré-filosóficas e pré-científicas como são importantes para a nossa cultura atual.

Ainda que de uma forma diferente, os mitos sobreviveram ao tempo. Se não acreditamos mais na literalidade das narrativas é inegável a importância da construção simbólica presente nos mitos, que tratam de elementos essencialmente humanos e universais. Os temas dos mitos não são apenas os heróis e suas batalhas épicas, mas são também a vitalidade do pensamento humano, do desejo de conhecer, o conjunto de sentimentos e contradições inerentes à sensibilidade humana etc. Por isso, entender os mitos é, de certa forma, entender a essência humana, não importando a época ou o local em que estamos.

Essa discussão sobre o mitos, portanto, é vital para compreendermos o surgimento da Filosofia, não por um processo de oposição ou contraste, mas sim por um caminho de reflexão sobre as questões abordadas no âmbito do pensamento mitológico. No entanto, existiram também algumas condições históricas, políticas e econômicas que possibilitaram o surgimento da Filosofia na Grécia, o que abordarei em outro texto, mais adiante.